Estudantes da Universidade de São Paulo (USP), que estão em greve desde o dia 14 de abril, invadiram o prédio da reitoria da instituição na tarde desta quinta-feira (7). A invasão ocorreu durante um ato de manifestação na Cidade Universitária, campus da USP localizado no Butantã, zona oeste na capital paulista.
Um vídeo enviado à reportagem mostra uma grande quantidade de alunos adentrando o prédio, empunhando bandeiras e segurando bastões de fumaça. Enquanto invadem o espaço, eles cantam em direção ao reitor da USP, Aluísio Segurado: “Ô, Aluísio, preste atenção, o seu palácio vai virar ocupação”.
Ainda conforme as imagens, gravadas por um dos alunos, é possível ver um dos portões da reitoria sendo derrubado pelos manifestantes. Um estudante chega a gritar: “Vai quebrar! Quebrou!”.
O ato foi organizado e convocado pelo Diretório Central dos Estudantes (DCE).
Em outro vídeo, os estudantes passam pelo jardim do prédio e conseguem tombar duas vidraças que dividem a área externa do edifício da interna. Com os vidros quebrados, os alunos conseguem acessar o hall da reitoria.
Em nota, a USP disse lamentar a “escalada de violência” que “levou à invasão do prédio principal da Reitoria por manifestantes, com danos ao patrimônio público”.
A universidade diz que acionou a Polícia Militar, que também adentrou o prédio para evitar que os estudantes ocupassem outros espaços. A reportagem apurou que os agentes estão posicionados em uma área também localizada no primeiro piso do prédio. Eles fazem um cordão de contenção, mas sem contato direto com os alunos.
“Em toda a ação, serão priorizadas a segurança e a integridade física de todos os envolvidos”, diz a USP, que destaca que outras unidades da universidade, como institutos, museus e órgãos de administração, estão com as suas atividades regulares
Os alunos pedem por melhorias nos programas de permanência estudantil e têm criticado questões estruturais da universidade, como o Restaurante Universitário e também o Hospital das Clínicas (HC), que, conforme os manifestantes, perdeu cerca de 30% de seu quadro de funcionários na última década.
A reitoria chegou a abrir rodadas de negociação com os estudantes. Mas, como a proposta não foi acatada pelos grevistas, os pró-reitores negaram a se encontrar novamente com os discentes para novas conversas.
Mais cedo, os manifestantes bloquearam a entrada do prédio por meio de um cordão humano, pressionando a reitoria para reabrir as negociações. Depois, reagendaram um novo ato para as 14h desta quinta, que acabou desembocando na invasão.
Divergências
O principal ponto de divergência entre os alunos e a reitoria é o reajuste do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE), principal política de assistência socioeconômica da universidade.
Atualmente, os benefícios variam entre cerca de R$ 330 para estudantes com moradia e R$ 885 mensais para auxílio integral, além da gratuidade nos restaurantes universitários.
A USP propôs um reajuste baseado no índice IPC-FIPE. Com isso, o valor integral passaria para R$ 912 mensais, enquanto o auxílio parcial com moradia subiria para R$ 340. Os estudantes, no entanto, reivindicam que o benefício seja equivalente ao salário mínimo paulista, atualmente em R$ 1.804, além da ampliação do programa.
Segundo a reitoria, o PAPFE atendeu 17.587 estudantes de graduação e pós-graduação em abril. O orçamento previsto pela universidade para 2026 destinado a auxílios, bolsas, moradia estudantil, restaurantes universitários, esporte e assistência à saúde é de R$ 461 milhões.
As condições dos restaurantes universitários também estão entre as principais reclamações dos estudantes. Nos últimos meses, alunos relataram problemas recorrentes de qualidade da alimentação, incluindo denúncias de comida estragada e presença de larvas no restaurante da Faculdade de Direito.
A greve teve como estopim a criação da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace), um bônus destinado a docentes. Após pressão e mobilização dos servidores, que também reivindicavam uma melhoria salarial, a categoria conquistou isonomia na medida e encerrou a paralisação. Já os estudantes decidiram manter o movimento grevista e ampliar as reivindicações ligadas à permanência estudantil.(Colaboraram Rariane Costa e Gonçalo Júnior)




